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[DIA ZERO] - TEXTO ESCRITO EM 13/JAN/2022

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  Catatônico. ***** Acordar, ouvir os gritos da Alessandra vindos da cozinha, correr, encontrar meu filho morto e mesmo assim ficar 40 minutos realizando RCP, ir ao pronto socorro, receber a notícia inevitável. Alessandra, incontrolável, teve que ser sedada.  Sem minha irmã Andréa e meus queridos amigos Audrey, Patrícia, Carlão e Giba, além das minhas lindas Bibi e Tutu, não faço ideia do quão mais difícil teria sido. Ao final do dia, respirar fundo, tentar racionalizar e escrever uma mensagem ainda cheia de dúvidas, conforme segue.  ***** Obrigado, Pietro, meu querido filho. Obrigado pelos 18 anos e 10 meses que você me presenteou com sua presença. Obrigado por ter me deixado amá-lo com todo meu coração. Obrigado por ter dado tanto sentido à minha vida. Obrigado pelos beijos, pelos abraços, pelos sorrisos, por todos os momentos que compartilhamos. Obrigado por tudo, meu amado Pietro. E saiba que a dor impossível de definir e mensurar que sinto hoje — e sentirei eternamen...

[DIA 50] - TEXTO ESCRITO EM 4/MAR/2022

O Feitiço do Tempo. ***** O luto anda batendo muito forte e me desestabilizando. Comecei a refletir ainda mais sobre seus processos. Essa mania de buscar o raciocínio lógico de tudo ainda vai me deixar louco. Especialmente porque nem tudo tem lógica, então muitas vezes a minha conclusão tem que ser “a lógica é que não existe lógica”. Aqui na minha casa somos em quatro sobreviventes e são quatro processos de luto diferentes. O meu está num extremo, o do enfrentamento aberto. Se fosse uma luta de boxe, eu ofereceria minha cara e diria: pode bater que você não vai me derrubar, eu aguento até você cansar. Bem Rocky Balboa mesmo. O luto da Alessandra seria uma daquelas lutas de MMA em que os caras ficam se agarrando no chão, um tentando quebrar o braço do outro, procurando brechas e se defendendo, tudo bem mais arrastado. As meninas são muito jovens, têm uma vida inteira pela frente, são monjas shaolin, movimentos leves, quase uma dança. A Tutu é mais agressiva e a Bibi é mais de boa na lag...

[DIA 49] - TEXTO ESCRITO EM 3/MAR/2022

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Como você explica? ***** Parte do texto de ontem foi para mostrar que eu sou normal… quero dizer… normal para um enlutado… quero dizer… escrevi aquele texto num estilo zoado porque a confusão generalizada é tudo verdade e é normal… quero dizer… não para as pessoas normais, é normal para quem está de luto… quero dizer… eu não sou a fortaleza que às vezes passo a impressão de ser… quero dizer… deixa pra lá. ***** Durante milênios medicina e religião foram uma coisa só. Na história da humanidade, apenas muito recentemente elas se separaram. Até uns 500 anos atrás, uma pandemia de covid seria considerada um castigo divino. Deus está castigando porque nós estamos em perdição e ponto final, assunto encerrado.  Esta é, até hoje, uma das funções imprescindíveis das religiões: manter a ordem. Mas a importância delas vai muito além. Um rápido exemplo: faz sei-lá-quantos-anos, numa época em que não se tinha noções de higiene, os porcos eram criados literalmente no meio do cocô. Alguém percebe...

[DIA 48] - TEXTO ESCRITO EM 2/MAR/2022

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Tem dia que não é dia. ***** Quarta-feira de Cinzas, mas o carnaval está rolando solto nas minhas sinapses. Zona geral. Não consigo me concentrar em nada. Leio sobre ucranianos lutando pela vida e lembro de tanta gente querendo mørr∑r. Acho que a distribuição populacional do mundo está errada, as pessoas certas estão nos lugares errados. Um exército de suicidas seria imbatível por não ter medo da mørt∑? Ou seria derrotado nos primeiros segundos, com todos se colocando na direção dos tiros? Olho o Facebook, curto alguns comentários, respondo mensagens no piloto automático. A procrastinação me dominou. Procrastinação… não sei por que esta palavra me lembra sacanagem… tentando ler um livro, mas paro a cada quatro páginas. Alessandra me chama, só que eu estou irritado sem motivo, dou uma resposta atravessada. Hoje de manhã cedinho chorei de saudade do Pietro enquanto fazia café. WhatsApp das escolas apitando e eu evito olhar, não estou com cabeça agora. E a conta do Nubank do Pietro? Carac...

[DIA 47] - TEXTO ESCRITO EM 1/MAR/2022

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Para nossos filhos. ***** Olá, crianças! Mesmo se forem crescidos, vou chamar vocês assim, ok? Pais e mães são Frankensteins. Bichos formados por pedaços de vários bichos. Umas partes são deles mesmos, outras são implantadas pela sabedoria dos seus avós (pais deles), várias só crescem quando vocês nascem, algumas são tiradas do convívio com irmãos, primos, colegas de trabalho, amigos… e tem aquelas que foram modificadas e moldadas pela vida. Ver vocês em estado de depre&&ão é o mesmo que sermos colocados num quarto escuro, sabendo que existe uma ameaça contra vocês, mas sem sabermos qual é nem onde está. Como não conseguimos enxergar, todas as partes frankensteinizadas se juntam numa só e nos transformamos em heróis da Marvel, Wolverines cheios de garras dispostos a defendê-los contra tudo e todos. Porém, não há nenhuma frestinha de luz neste quarto. As garras se movimentam movidas apenas pelo instinto, por sons aleatórios, pelo cheiro do perigo — e acabam, por vezes, sem quere...

[DIA 46] - TEXTO ESCRITO EM 28/FEV/2022

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Miscelânea. ***** O Depois da Borda é o relato de um pai que está na borda, no limite, na beira do precipício. Este blog deixará de fazer sentido se os textos se tornarem mais cerebrais do que emocionais. Encaro como um processo natural. Eu preciso deixar a vida me invadir e quanto mais vida entrar em mim, mais espaçados ficarão os sentimentos e os pensamentos disparados pelo luto — e que tanto se conectaram com o íntimo dos leitores. Aproxima-se o momento de eu me permitir ter uma Bolha de Felicidade. ***** Mensagem recebida hoje de uma leitora. Iluminou meu dia e me emocionou. Com autorização dela e, claro, sem identificá-la. ***** “Sergio, boa tarde.  Há dias me questiono se essa mensagem deveria ser enviada, ou se eu apenas poderia continuar lendo e internalizando todas as descobertas que tenho feito no Depois da Borda. Sinto receio de não saber como comunicar a você a profundidade com a qual as suas reflexões me tocaram – e parecer de certa forma insensível.  E o que mudo...

[DIA 45] - TEXTO ESCRITO EM 27/FEV/2022

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Oh céus! Oh vida! Oh azar! ***** As Bolhas de Função parecem ter entrado definitivamente nos meus dias, são cada vez mais frequentes e duradouras. Estão resistindo inclusive ao meu imã pessoal para atração de pepinos e outros vegetais descascáveis. Foi chegar na escola ontem e quinze minutos depois a aluna desmaia na cozinha, pouco antes da aula. E toca tentar falar com alguém, não conseguir, pegar o carro, levar a moça pra casa, voltar, demitir uma pessoa (a tarefa que eu mais odeio), conversar com a equipe para alinhar a saída desta pessoa, sair para comer alguma coisa, voltar, esperar a aula acabar e conversar com o Chef sobre uma ex-aluna dele que está nos causando problemas. Só abacaxi… ***** Dizem que a maneira mais simples de identificar uma pessoa chata é perguntar: como vai você? Se ela começar a responder como está de verdade… BLÉM! BLÉM! BLÉM! Toca a sirene de alerta: alto índice de chatice detectado! Brincadeiras à parte, existem inúmeras modalidades de chatos. Os inteligen...

[DIA 44] - TEXTO ESCRITO EM 26/FEV/2022

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The book is on the table. ***** Se eu perguntar para um milhão de pessoas: “você gostaria de FALAR inglês?” receberei a resposta SIM 999 mil vezes.  Se eu perguntar para um milhão de pessoas: “você gostaria de ESTUDAR inglês?” receberei a resposta NÃO 999 mil vezes. Lógico. A primeira pergunta só questiona o desejo, enquanto a segunda questiona o prazer, a necessidade, os benefícios, a dedicação. Não é à toa que existem tantos milagreiros no Facebook prometendo ensinar inglês em 90 dias. Quanto menor o esforço, mais atraente é a proposta.  Das mil pessoas que responderem SIM à segunda pergunta, pelo menos metade não vai estudar e a principal desculpa será a falta de tempo, mas eu vou falar a verdade verdadeira: bull shit. O motivo real é que é muito difícil fazer algo — qualquer coisa — que você não goste, precisa ter uma necessidade ou um benefício muito grandes. Eu trouxe este assunto especialmente para falar sobre depre&&ão. Já disse aqui em outro post que o oposto ...