[DIA 10] - TEXTO ESCRITO EM 23/JAN/2022


Vazio imenso. O trauma da cena da m0rt3 do meu filho começa, vagarosamente, a perder força, atormenta mais em pesadelos do que durante o dia. Na manhã fatídica, Alessandra e eu chegamos até o Pietro quase ao mesmo tempo, correndo e gritando desesperadamente. Coloquei uma lente dos meus óculos na sua boca e vi que não embaçava. Fechei e abri suas pálpebras e notei que não havia contração nem dilatação de pupila. Liguei 190 sabendo que meu filho estava morto, mesmo assim Alessandra e eu nos revezamos por trinta minutos ininterruptos fazendo massagem cardíaca até a chegada dos bombeiros, ouvindo o celular caído ao seu lado tocando a trilha sonora que ele escolhera para ouvir naquele momento.

Como é possível esquecer esta cena por um segundo sequer? Acho que a gente vai criando mecanismos de bloqueio, sei lá. Hoje eu tenho certeza que em algum momento meus dias serão quase normais, mas as noites, o deitar na cama, o colocar a cabeça no travesseiro… estes ainda vão me assombrar por muito tempo, possivelmente para sempre.

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Eu sempre gostei muito de ficar só. Passo horas e horas a fio comigo mesmo, às vezes escrevendo, outras pensando à toa. Normalmente almoço sozinho ou, quando não, encontro uma maneira de dar uma escapada no meio da tarde ou mais para o final dela. Dias em que tenho a agenda cheia são exaustivos ao extremo. Pietro teve a quem puxar… só que… eu vejo uma grande diferença entre ser solitário e gostar de ficar sozinho. Solitário, para mim, é aquele que fica sozinho sem querer, que gostaria de estar numa festa, com amigos, uma namorada, família… e não consegue por timidez, baixa autoestima, dificuldade de interação social, entre outras causas; uma delas que atualmente está levando à solidão é o vício em jogos on-line. Este não era exatamente o caso do Pietro, pois ele passava o dia inteiro no computador, mas fazia muitas outras coisas, era curioso, assistia a documentários e vídeos sobre temas diversos no YouTube e inclusive mantinha fortes laços de amizade com outros habitantes do mundo virtual. Não era um viciado típico, porém tinha o vício. E este vício aumenta progressivamente a incapacidade de se relacionar com pessoas. 

Quanto mais se joga on-line, mais difícil fica sentir os prazeres da vida real. É comum que a maturidade traga com ela a cura, com frequência estimulada por um rabo de saia. Mas não é sempre. Digo apenas que vocês, pais e mães, precisam descobrir se os seus filhos são solitários ou se apenas gostam de ficar sozinhos, se assumem responsabilidades na rotina da casa, almoçam com a família, têm alguns interesses no mundo real, saem com amigos de vez em quando… sim, é fato que, mesmo assim, jogos on-line em excesso são terríveis, afetam o físico, a mente e inclusive as capacidades cognitivas. Mas o que destrói de verdade uma vida adulta saudável não são os jogos, é o beco escuro e sem saída da solidão.

Comentários

  1. Deus dará a força necessária para uma reconstrução. É uma questão de tempo.

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  2. Meu filho morreu da mesma forma que o Pietro. 3 dias antes, 10/01/22. Quando cheguei na cena, a primeira coisa que ouvi já no portão foi uma música muito alta, não consigo lembrar a música. Depois vi que ele pesquisou no YouTube, música pra se matar😓😓😓😓

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