[DIA 50] - TEXTO ESCRITO EM 4/MAR/2022
O Feitiço do Tempo.
*****
O luto anda batendo muito forte e me desestabilizando. Comecei a refletir ainda mais sobre seus processos. Essa mania de buscar o raciocínio lógico de tudo ainda vai me deixar louco. Especialmente porque nem tudo tem lógica, então muitas vezes a minha conclusão tem que ser “a lógica é que não existe lógica”.
Aqui na minha casa somos em quatro sobreviventes e são quatro processos de luto diferentes. O meu está num extremo, o do enfrentamento aberto. Se fosse uma luta de boxe, eu ofereceria minha cara e diria: pode bater que você não vai me derrubar, eu aguento até você cansar. Bem Rocky Balboa mesmo.
O luto da Alessandra seria uma daquelas lutas de MMA em que os caras ficam se agarrando no chão, um tentando quebrar o braço do outro, procurando brechas e se defendendo, tudo bem mais arrastado.
As meninas são muito jovens, têm uma vida inteira pela frente, são monjas shaolin, movimentos leves, quase uma dança. A Tutu é mais agressiva e a Bibi é mais de boa na lagoa. Elas sabem que no final vão vencer.
Eu assumi o compromisso comigo mesmo de ser transparente aqui. A ideia é relatar os meus momentos à medida que eles acontecem, senão não faz sentido. Na vida real não posso pressionar, devo respeitar o modus operandi do luto da Alessandra, é mais fácil eu pisar no freio do que ela no acelerador.
Neste cenário, nos últimos dias eu decidi que iria vasculhar os momentos que temos registrados com o Pietro. Eu precisava, era uma ordem que vinha das minhas entranhas. Cadê os momentos felizes? Cadê as provas de que você foi um bom pai? Cadê aquelas memórias que você disse no primeiro dia que iria guardar? Eu fui compelido a ir atrás delas.
Tem um filme chamado Feitiço do Tempo, com o Bill Murrey. Conta a história de um cara que acorda sempre no mesmo dia. Uma das técnicas que eu uso para domar a minha depre&&ão foi inspirada neste filme. Busco no passado os meus dias felizes e foco neles para não esquecer que existem, só preciso encontrar maneiras de tê-los mais vezes.
Hoje eu gostaria de escolher um dia com a minha família inteira, transformá-lo no Dia da Marmota do filme e revivê-lo para todo o sempre.
Revi todas as memórias nesse quase quatro anos: fotos, vídeos, tudo o que Pedro escreveu, tocou, pensou, realizou. Construi um baú de memórias. Mas, a dor continua...
ResponderExcluir