[DIA 4] - TEXTO ESCRITO EM 17/JAN/2022

Passei anos tentando tirar meu filho da frente do computador. No início eu inventava passeios ou viagens. Daí veio a fase de restringir horários. Foi a pior. O que mais me incomodava não era ele ficar no computador, era a sua irresponsabilidade, a falta de compromisso com tudo e todos. Eu brincava que se desse internet e fizesse um buraco na porta para passar comida e Coca-Cola ele nunca mais sairia do quarto. Pietro sempre dizia: você não entende que minha vida está na internet e não aqui. Não entedia mesmo. Mas entendi que brigar e discutir não iria adiantar. Ele mesmo precisava sentir a necessidade de viver no nosso mundo, senão seria uma guerra perdida. Pouco depois de eu chegar a essa conclusão… veio ela, a pandemia! Eu a excomungava por ter quase destruído meus negócios, ela consumiu todas as minhas reservas financeiras. Mas agora… minha perspectiva mudou por completo. Eu me dei conta que, com a pandemia, veio a vida on-line. E com a vida on-line, o mundo do Pietro passou a ser o mundo de todos. Nós tivemos que nos adaptar e ele não.

Hoje eu tenho convicção de que a pandemia prolongou a vida do meu filho. Esse período de quarentena foi um dos mais felizes na vida recente do Pietro. Porém veio 2022 e a realidade voltou a bater na porta. Não posso afirmar, mas tenho quase certeza que foi essa perspectiva de ter que encarar o mundo real que desencadeou o processo final. Se tivesse a compreensão que tenho hoje, talvez, apenas talvez, eu tivesse conseguido mais alguns meses, ou anos. Mas teria sido por mim, por egoísmo puro, e não por ele.

No mesmo fatídico 13 de janeiro de 2022 o celular do Pietro começou a tocar e recebemos condolências com choros genuínos vindos da Islândia, da Croácia, da Turquia, dos Estados Unidos, da Itália... além de mensagens de WhatsApp do Brasil e do Mundo. Mais uma prova de que eu não tinha a menor noção da profundidade, da intensidade, do comprometimento que existe na amizade on-line entre esses jovens. Por que não sabia? Por causa do hábito horrendo de rotular e colocar na prateleira por preconceito e por ignorância. Isso se chama tabu, um dos maiores inimigos do mundo moderno.

Comentários

  1. O maior inimigo :nossos pensamentos. Nos corroe , nos maltrata...

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  2. A pandemia permitiu que o seu Pietro e o meu Pedro provasse de um mundo menos exigente, e, principalmente, com mais proteção, tempo pra respirar, pensar, ficar só. Por isso voltar foi impossível.

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