[DIA 46] - TEXTO ESCRITO EM 28/FEV/2022
Miscelânea.
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O Depois da Borda é o relato de um pai que está na borda, no limite, na beira do precipício. Este blog deixará de fazer sentido se os textos se tornarem mais cerebrais do que emocionais. Encaro como um processo natural. Eu preciso deixar a vida me invadir e quanto mais vida entrar em mim, mais espaçados ficarão os sentimentos e os pensamentos disparados pelo luto — e que tanto se conectaram com o íntimo dos leitores. Aproxima-se o momento de eu me permitir ter uma Bolha de Felicidade.
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Mensagem recebida hoje de uma leitora. Iluminou meu dia e me emocionou. Com autorização dela e, claro, sem identificá-la.
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“Sergio, boa tarde.
Há dias me questiono se essa mensagem deveria ser enviada, ou se eu apenas poderia continuar lendo e internalizando todas as descobertas que tenho feito no Depois da Borda. Sinto receio de não saber como comunicar a você a profundidade com a qual as suas reflexões me tocaram – e parecer de certa forma insensível.
E o que mudou hoje? Um parágrafo.
'Eu observaria com atenção a força de vontade delas para fazer o que precisa ser feito. Observaria o grau de procrastinação. Observaria como elas preenchem seus dias, se fazem algo útil para seu futuro, se assumem responsabilidades.’
Olhei pra mim e, somado a tantas outras coisas que tenho lido, percebi o quão urgente é que eu tome consciência do que tenho vivido e da importância de um tratamento.
Tenho 30 anos, mas ainda me sinto com 15. Parei no tempo. Estou há "nem sei quantos anos" esperando acordar um dia e perceber que todos esses pensamentos obscuros e perturbadores se foram e posso finalmente começar a viver minha vida. Eu me esforço tanto para ninguém perceber o que eu sinto, vivo e penso, que quando chego no limite da exaustão, os dias seguintes se passam como um borrão. Nesses dias eu ando rente as paredes, como se a qualquer momento eu fosse cair, e respirar é uma ação quase impossível. Eu literalmente tenho sintomas físicos de uma dor que começou dentro da minha cabeça. Por vezes realizei exames na esperança de realmente ser algo físico, mas nada, estava tudo ok.
Depois que ouvi de uma psicóloga aos 15 anos que ‘é só você lembrar que tem gente vivendo coisas muito piores, como a fome, doenças, preconceitos, que toda essa tristeza sua vai embora’, sinceramente achei que isso era normal, que era comum as pessoas se sentirem assim tão oprimidas. Desde então, sempre que resolvo começar um tratamento, desisto no mês seguinte. Vou criando as minhas estratégias, e sigo sobrevivendo. Sem prazer em nada, com choro diário, aperto no peito interminável, e aproveitando os raros momentos em que me sinto bem.
Eu me reconheci em muitas reflexões do Depois da Borda e isso me deu força para voltar a escrever e organizar meus sentimentos e pensamentos. Criei coragem para recomeçar um tratamento e pedi ajuda as pessoas próximas a mim. Com isso, percebi que os meus piores pensamentos se dissiparam. Nunca tive tanta clareza do meu processo, como tive nas últimas semanas.
Eu me entristeço, pois penso, a que custo para quem escreve? Por isso hoje, decidi vir aqui dizer que as suas palavras estão salvando a minha vida. Eu queria poder explicar, mas acho que não consigo. Eu espero do fundo do meu coração não estar sendo inconveniente e deixo aqui a minha gratidão por compartilhar as suas descobertas em um momento de tanta dor.”

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