[DIA 49] - TEXTO ESCRITO EM 3/MAR/2022
Como você explica?
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Parte do texto de ontem foi para mostrar que eu sou normal… quero dizer… normal para um enlutado… quero dizer… escrevi aquele texto num estilo zoado porque a confusão generalizada é tudo verdade e é normal… quero dizer… não para as pessoas normais, é normal para quem está de luto… quero dizer… eu não sou a fortaleza que às vezes passo a impressão de ser… quero dizer… deixa pra lá.
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Durante milênios medicina e religião foram uma coisa só. Na história da humanidade, apenas muito recentemente elas se separaram. Até uns 500 anos atrás, uma pandemia de covid seria considerada um castigo divino. Deus está castigando porque nós estamos em perdição e ponto final, assunto encerrado.
Esta é, até hoje, uma das funções imprescindíveis das religiões: manter a ordem. Mas a importância delas vai muito além. Um rápido exemplo: faz sei-lá-quantos-anos, numa época em que não se tinha noções de higiene, os porcos eram criados literalmente no meio do cocô. Alguém percebeu que quem comia carne de porco ficava doente e muitas vezes morria. O que algumas religiões fizeram? Simplesmente decretaram que era pecado comer carne do porco. Pronto. Problema resolvido. Lógico que ninguém sabia o real motivo, então a explicação era sempre etérea. Atualmente, várias igrejas evangélicas condenam o uso de álcool e drogas… usam o inferno ou Jesus como argumento… e salvam muita gente!
Esta técnica não é exclusiva das religiões. Muitos povos adotam o hábito da “siesta”, que nada mais é do que descansar depois de almoçar. Surgiu da observação de que comer muito e depois fazer esforço físico pode ocasionar o que chamamos hoje de congestão. Ou seja, não sabiam exatamente por que, mas era bom dar um tempo entre comer e se exercitar… siesta no povo!
Às vezes estes processos se deturpam ao longo do tempo. Aposto que 9 entre 10 leitores foram proibidos por seus pais e já proibiram seus filhos de entrar na piscina ou no mar depois do almoço. Alguns chegam a falar que não pode nem tomar banho! Estou certo? Sei que estou. Vou contar a real pra vocês. Piscina/mar + criança = esforço físico. Mas só há risco se comer muito. Então… podem ficar com raiva dos seus pais e com remorso por terem feito seus filhos ficarem esperando fazer a digestão duas horas na beira da piscina só porque comeram um hambúrguer ou um salgadinho. E pode bater na testa se você proibiu a piscina mas deixou jogar futebol. Não tem nada a ver com a água nem choque térmico (não existiria nenhum russo vivo se choque térmico matasse). Tem a ver com esforço físico + muita comida.
Eu trouxe este assunto porque recebi várias mensagens de pessoas recomendando que eu me livrasse das coisas do Pietro o mais rápido possível. Algumas não sabem direito dizer o porquê, outras dizem que é uma recomendação do pastor delas e outras por ser um conceito do espiritismo, algo como o espírito ficar preso enquanto os pertences do falecido estiverem no mesmo lugar. Aí fiquei pensando… por que as religiões se preocupariam com os objetos dos finados? Tem que ter alguma razão…
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Ontem estava lendo um artigo sobre luto. Você sabia que é muito comum viúvas continuarem a colocar os pratos dos maridos na mesa por muito tempo depois de eles terem morrido? Que muitas lavam, passam e guardam suas roupas no armário do jeito eles gostavam? Por anos a fio? E que isso faz o processo de luto ficar zilhões de vezes mais doloroso e sofrido? E que chega a ser incapacitante? Pois é… como fazer uma viúva profundamente enlutada se libertar desta amarra? A fé consegue tudo! Caiu a ficha? Cada religião criou uma maneira de tirar o peso da culpa e do luto dos seus fiéis.
As religiões, quaisquer que sejam, são pilares fundamentais da sociedade. Em menor escala, a sabedoria popular também. Distorções acontecem no meio do caminho? Sim. Mas quando o objetivo é salvar vidas e aliviar sofrimentos, não precisa explicar. Até o exagero vale a pena.

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