[DIA 9] - TEXTO ESCRITO EM 22/JAN/2022


Você já tem 18 anos ou tem só 18 anos?

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Ganha força a ideia de mudar para a Itália algum dia. Os primos da Alessandra são muito unidos e, se um dia eu faltar, quero que ela esteja lá, rodeada por eles.

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A minha geração tinha o compromisso de decidir o que iria fazer da vida depois de terminar o que chamávamos de colegial. Mais que isso, as opções para um jovem de classe média alta eram limitadíssimas. Lembro como se fosse hoje quando disse para minha mãe que pretendia estudar Português e Literatura, porque queria ser escritor. A resposta dela foi a mesma de tantos e tantos outros pais naquela época: você pode fazer isso como hobby, depois de terminar uma faculdade que garanta a você uma profissão. Ela se referia a engenharia, arquitetura, direito, medicina, odontologia, veterinária, jornalismo, agronomia e não muito mais que isso. Fale a verdade, se você tem 40 anos ou mais e tinha dúvida sobre o que gostaria de fazer para o resto da vida, aposto que ouviu algo parecido. Carregamos boa parte deste hábito até hoje, esquecendo que o mundo já vinha evoluindo e se tornando mais complexo e que de uns tempos para cá quase que ano a ano dá saltos gigantescos. Duzentos anos atrás, um garoto de 11 anos já estava na lavoura ou na escola do exército ou na sapataria do pai aprendendo seu ofício. Cento e cinquenta anos atrás era comum uma menina se casar com 13 anos e ser avó aos trinta. Cem anos atrás, aos 18 anos um rapaz já estava pronto para a vida. Cinquenta anos atrás, aos 22 anos uma pessoa já tinha terminado uma das faculdades que citei acima e estava construindo sua carreira. Era mais simples. Um diploma valia para vida inteira. Havia muito menos opções, as mudanças eram lentas.

Hoje em dia os jovens são bombardeados por uma quantidade brutal de informação e o leque de opções quase bate no infinito. Surgem novas profissões em intervalos de poucos meses. Um jovem com algum talento especial pode ficar milionário aos 16 anos jogando futebol, sendo influencer ou emplacando uma start up. Estes sucessos precoces representam algo perto de 0,0001% da população, mas ganham tanta exposição que parece ter um em cada esquina. Outros poucos já têm sua vocação definida e vão seguir suas carreiras. Os demais vão precisar de mais tempo para escolher seu futuro.

A exposição excessiva a informações, a evolução frenética e irrefreável da tecnologia está atrasando o processo de maturidade, há uma certa infantilização, fica difícil encontrar um caminho, fazer escolhas tão definitivas num ambiente tão mutante. Frequentemente passei por diálogos parecidos com este:

— O que seus filhos “estão fazendo”?
— A mais velha, Gabriella, é tatuadora. A do meio, Giovanna, termina a faculdade de arquitetura em 2022 e o Pietro eu não sei o que vai fazer.
— Que legal. E quantos anos tem o Pietro?
— Dezoito.
— Já?
— Não. Ainda…

Eu estava errado com relação ao Pietro. Ele já sabia há um bom tempo o que queria fazer, qual seria seu destino, estava apenas esperando o momento certo. Mas você, que não é pai nem mãe do Pietro, precisa ajustar suas expectativas, ter paciência, tentar compreender o momento de cada um dos seus filhos. Comparações tendem a ser cruéis e angustiantes. Muito provavelmente eles vão ficar mais tempo no ninho dos pais. Aproveite cada segundo.


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