[DIA 37] - TEXTO ESCRITO EM 19/FEV/2022


Su!©!d!ø é pecado?

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Escrever este blog tem me obrigado a conhecer tragédias colossais. Recebi mensagem de mãe que perdeu os filhos gêmeos, mãe que perdeu três filhos, mães desesperadas com filhos que falam em se matar. Não ter respostas gera uma @ngú&ti@ de proporções dinossáuricas. Às vezes acho que minha tragédia pessoal fica insignificante. Deveria agradecer o privilégio de ter estrutura mental e pessoal para enfrentar. E penso assim até cair a primeira lágrima. Aí tudo desaba. Choro várias vezes por dia, sempre sozinho. É a minha dor, a minha saudade, a minha revolta, a minha recusa em aceitar. Dor de luto não se compartilha, não se divide, não se minimiza, cada um tem a sua. Não existe menor ou maior, apenas existe.

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A religião quase sempre ajuda muito a superar a mørt∑ de um filho. Acreditar que foi Deus em sua sabedoria divina que decidiu e escolheu é uma bênção. Mas há casos complexos. Já recebi três relatos de mães que foram abandonadas em seu sofrimento, obrigadas a lutar sozinhas contra a dor imensa de perder um filho para o su!©!d!ø porque estão inseridas num ambiente social e religioso em que su!©!d!ø é pecado e não dá direito ao Paraíso. A comunidade da igreja se afasta, olhando de soslaio. A família fica envergonhada e se recusa a falar sobre o ocorrido. Maridos se fecham e se calam, por vezes reagindo com violência verbal. Sim, eu digo maridos, porque se fossem pais entenderiam o sentimento. A mãe fica perdida, sem apoio, frequentemente humilhada, impossibilitada até mesmo de buscar ajuda. A ignorância é cruel. E a crueldade aumenta quanto mais jovem for a mãe enlutada. Falta-lhe rodagem, faltam calos e cascas protetoras que só a vivência, a idade e o enfrentamento das agruras da vida são capazes de criar. Apesar de não ser por experiência própria, fiz questão de registrar este cenário aqui porque ele é real. Se você conhece de perto ou desconfia que alguma mãe esteja passando por isso, não feche os olhos. Se puder ajudar, ajude. É mais que solidariedade, é uma questão de humanidade. Pecado mesmo é abandonar essas mães à sua própria sorte.

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