[DIA 36] - TEXTO ESCRITO EM 18/FEV/2022
Gangorras.
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Meus dias passam passeando entre extremos. Hora estou focadíssimo, hora estou disperso, as pessoas falam e eu vejo bocas se mexendo, capto os sons, mas não consigo processar as palavras. Memória se tornou serviço de luxo na minha cabeça. Como é difícil aceitar que o Pietro se foi porque ele quis ir! Meu filho não me foi tirado por causa de alguma tragédia ambiental, brutal ou acidental em que você é impotente, nada pode fazer. Ele decidiu que queria mørr∑r. Ele escolheu a data, planejou, arquitetou sua mørt∑. Vocês têm noção do sentimento de incompetência dos pais? A gente fica recriando os últimos dias e vamos descobrindo os tantos sinais que ele mandou, as tantas coisas que, se tivéssemos feito, adiariam sua partida. Sim, adiar é o verbo certo e é o único que me consola. Creio que se não fosse desta vez seria de outra. Mas o que eu não daria para que fosse de outra… só tudo!
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Ontem eu recebi uma ligação de trabalho me passando um problema que parecia insolúvel, complicadíssimo, mas a solução era simples. Eu enxergo cada passo do que fazer com a nitidez de um filme em HD. Sou péssimo para a maioria das coisas profissionais, mas sou um bom descascador de pepinos.
Por outro lado, é muito ruim essa história de ser útil nos momentos de drama! Por tabela, eu fico me odiando por ver com transparência o que estou passando agora. Eu às vezes me detesto por conseguir racionalizar o quase irracionalizável.
Mas tem o outro lado. Sempre tem. Este blog só existe por causa dessa característica minha. No dia seguinte à mørt∑ do Pietro, em meio ao turbilhão do funeral e tudo mais que cerca este momento… e eu já estava colocando o meu primeiro post aqui. Vai ser racional assim lá longe!
Pior é que praticamente todas as pessoas confundem ser racional com ser desprovido de emoção. Errado, meus caros. Quando o coração manda o cérebro obedece. A diferença está apenas na habilidade de entender os porquês daquela ordem ter sido dada. Não sei se pode ser um conselho, pois depende demais da personalidade de cada um, mas em momentos de emoção extrema, de @ngú&ti@, @nsi∑d@d∑, tensão, medo, o único alívio disponível está na sua própria cabeça. Pergunte pra ela o que está acontecendo. Olhe à sua volta, projete o futuro, tente descobrir quais caminhos existem e para onde cada um deles leva. Você vai continuar chorando, seus dias continuarão com altos e baixos, mas pelo menos você saberá por quê.

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