[DIA 30] - TEXTO ESCRITO EM 12/FEV/2022


O futuro distante. 

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Ando exercitando uma espécie de retiro mental. Cheguei à conclusão que estava no caminho errado. Em vez de tentar desfocar o Pietro, preciso bifurcar o foco. Vai ter hora de Pietro e hora das demais coisas: trabalho, família, lazer. Ambos terão que conviver. Pietro não pode me impedir de sorrir e nada pode me impedir de ficar triste. Bom, o racional está definido. Resta pedir ao emocional que aceite a decisão…

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Muita gente me perguntando se, olhando para trás, eu encontrei alguma maneira de tentar prever a predisposição suicida de uma pessoa. Primeiro precisamos entender que existem várias personalidades diferentes de suicidas.

De acordo com os estudos que eu li (muitos!), 10% dos su!©!d!øs são de pessoas que nunca demonstraram nenhum traço de depre&&ão ou algo do tipo. E estas também são as que menos deixam cartas ou mensagens. Tudo leva a crer que são decisões repentinas. Aparecem, tomam conta, fim da história.

Há os su!©!d!øs com causas concretas. Empresários falidos e quem descobre estar com alguma doença incurável são dois bons exemplos. Acho impossível tentar impedir. Estas pessoas muitas vezes até planejam o su!©!d!ø para tentar deixar suas famílias com o mínimo de transtornos.

E temos os casos crônicos, que precisam ser subdivididos em dois tipos.

— A vítima é depressiva, porém jamais menciona o desejo de mørr∑r, um dia simplesmente faz.

— A vítima é reincidente, já tentou uma ou mais vezes, ou fala com frequência sobre o desejo de mørr∑r, que foi o caso do Pietro. Desde a pré-adolescência ele falava que sua vida não fazia sentido. Foram anos e anos de vigília. Alessandra e eu, sempre que acordávamos no meio da noite por qualquer motivo, íamos ao quarto dele para dar uma olhadinha. Na época em que ele se automutilava, Alessandra obrigava o Pietro a mostrar seus braços e pernas. Se tivéssemos ficado acordados todas as vezes que ele disse que não tinha razão para viver, estaríamos sem dormir há muitos anos.

Existe algo que possa ser comum a todos esses perfis? Acho muito difícil. Será que existe um gene do su!©!d!ø? Sei lá… a genética tem avançado tanto que talvez descubra um dia.

Mas tem uma coisa que se eu fosse psiquiatra ou psicólogo tentaria investigar. Analisando e remontando os diálogos que Alessandra e eu tivemos com o Pietro… plim! Tocou o sino do futuro distante! Identifiquei que o Pietro não conseguia pensar no longo prazo. Eu insistia nisso por causa do meu próprio exemplo. Fiquei cinco anos na medicina até ter maturidade suficiente para entender que eu poderia levar a faculdade aos trancos e barrancos, mas não minha vida. De que adiantaria pendurar um diploma da USP na parede e ser infeliz? Deixei tudo pra trás e fui atrás do meu sonho. Eu queria que o Pietro não fosse obrigado a passar por isso. Que pressa pode ter um garoto de 18 anos? Por que pressionar uma decisão tão precoce? Se não há certeza, tenhamos calma. 

Agora consigo enxergar que, em seu último ano, Pietro conversava, no máximo, sobre o dilema de qual faculdade escolher. Mas quando eu perguntava o que ele se imaginava fazendo para o resto da vida, ele não respondia, ficava me olhando com os olhos perdidos, que hoje eu interpreto como um “do que você está falando? Eu acho que nem estarei lá”. 

Posso estar falando uma grande bobagem. Mas já disse e repito que meu objetivo aqui não é estar certo, é registrar pensamentos e sentimentos à medida que eles acontecem. Então aqui vai a minha conclusão do momento: eu acho que o futuro distante pode ser usado para detectar a depre&&ão com tendência ao su!©!d!ø. E acredito que trabalhar um cenário de longo prazo, onde haja esperança e felicidade possa ser um caminho para terapeutas. De quebra, ainda pode auxiliar muitos pais no processo de escolha profissional de seus filhos. Fica o registro.

Comentários

  1. Rosemary Balieiro30 dezembro, 2023 07:25

    Infelizmente não estamos escapos dê uma tragédia,seja dê quê forma for,sempre deixa cicatrizes, quê jamais se apagarão com o tempo.

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