[DIA 28] - TEXTO ESCRITO EM 10/FEV/2022


Alessandra participou da sua primeira reunião on-line em um grupo de apoio dedicado a pais de filhos vítimas de su!©!d!ø. Eu fiquei ao longe acompanhando o que ouvia pelo viva-voz. As tragédias são indescritíveis. Chamou minha atenção a quantidade de meninas que se suicidam com 17 ou 18 anos. Eu sempre achei que o su!©!d!ø fosse uma atitude mais masculina do que é efetivamente. Fora isso, perde-se o chão ao ouvir detalhes dos momentos que antecederam os fatos e as consequências que deixaram. É uma experiência absolutamente chocante!

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A primeira palavra que me veio à mente foi “submundo”. Mas eu não gosto do “sub”, dá uma ideia de ser embaixo, escondido, sorrateiro. Aí procurei alternativas e não encontrei nenhuma que fosse adequada. O jeito foi inventar uma palavra. Formamos um contingente que o restante da população nem imagina. Não somos desconhecidos porque todos sabem que existimos, apenas ignoram, no sentido de não se preocupar. Se fôssemos considerados uma minoria, hoje em dia certamente estaríamos gritando por nossos direitos na mídia e nas redes sociais. Se perder um filho fosse como perder um braço seríamos portadores de necessidades especiais. Mas somos apenas um grupo dentre muitos outros grupos de pessoas que viveram experiências traumáticas únicas, não há categoria para nós. A minha conclusão é que vivemos em dois mundos simultaneamente, o nosso especial e o “normal”. Transitamos entre o relacionamento social com o mundo de todo mundo e com o nosso mundico que ninguém mais consegue entender, nem com muito esforço. Somos seres bissociais. A partir deste conceito, várias bissociedades podem ser formadas. Os bissociais por su!©!d!ø, por assassinato, por acidente. Também haveria os bissociais por drogas, por sequestro… a lista é extensa. Bissocial. Sim, acho que é isto que eu sou.

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