[DIA 27] - TEXTO ESCRITO EM 9/FEV/2022
Por causa de processos burocráticos rotineiros, hoje de manhã eu me deparei com a pergunta: quantos filhos você tem? Travei. Não consegui responder. Não estou preparado. O número dois ficou entalado, se recusou a sair. Pior ainda, destruiu meu dia. Estava disposto a sair, trabalhar… mas aquelas palavras entraram em looping na minha cabeça. Quantos filhos você tem? Quantos filhos você tem? Quantos filhos você tem… três, caraca! Serão sempre três! Mas não era esse número que eu precisava dizer…
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A maior dúvida das pessoas quando encontram com a Alessandra ou comigo é o que falar. Estendendo para todos os pais na nossa situação, a dica é: se você não passou pela experiência de perder um filho, não arrisque. Não ouse dar conselhos, frases começando com “você tem que…” são inúteis. Não fale da história do filho de alguém. Jamais, em nenhuma hipótese, diga que entende o sentimento comparando o luto de perder um filho com o da perda de pai, mãe, irmão, irmã, marido ou esposa. Nem muito menos diga que o tempo ou Deus irão confortar. O tempo ganha uma outra dimensão e mesmo pessoas religiosas costumam ficar com a fé abalada, pelo menos temporariamente, tentando aceitar o que aconteceu.
Parece incrível, mas existem aqueles completamente sem noção que falam dos seus filhos — dos filhos vivos! Quer coisa pior para um pai enlutado do que ouvir alguém falando do seu filho vivo? Digo já: não existe nada pior. Dá vontade de perguntar: quer trocar? Isto quando o desejo não é de mandar para aquele lugar…
Seus planos para o futuro? Não queremos saber. O futuro que existia se desintegrou. Imagine você cheio de dívidas, lutando para sobreviver e alguém falando que está em dúvida se compra uma Ferrari ou um Porsche... é esta a sensação, parece conversa de outro mundo.
Então… o que falar? Antes de pensar em falar, pense em ser gentil. Gentilezas são a coisa mais deliciosa. Dê um bombom sonho de valsa, busque um copo de água, ofereça-se para ir à padaria, não importa. Para quem passa o dia sofrendo, proporcionar bons momentos, mesmo que breves, já vai ajudar gigantemente!

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