[DIA 19] - TEXTO ESCRITO EM 1/FEV/2022
Avatares.
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Fui trabalhar. Eu me tornei mais objetivo. Quando a gente diminui a quantidade de palavras se torna mais cruel, amacia menos. Doeu meu coração deixar a Alessandra sozinha, mas o cordão umbilical precisa ser cortado. Questão de sobrevivência.
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— Alô, quem é?
— É o seu a avatar.
— Quem?
— Seu avatar, aquele cara que você inventou pra aparecer nas redes sociais.
— Como assim?
— Vou ser bem direto, estou entrando em contato pra pedir demissão.
— Ggguhguhgg…
— Sério mesmo, você forçou a barra. Você tá ferrado, cara… desempregado, sua mulher tá te traindo, você tá devendo até cueca suja… e me coloca sorrindo na piscina com uma caipirinha na mão?! Para com isso! Não estou aguentando este nível de fingimento mais não.
— Do que você está falando?
— Errado! Não sou eu que estou falando, é você. Você que me inventou, não fui eu.
— Aí você me ferra…
— Sim. Aliás… acha mesmo que caipirinha na piscina é uma boa estratégia? Se nem eu estou pegando ninguém, imagino você.
— Você quer me humilhar, é isso?
— Não, só quero abreviar. Era pra eu ser sua versão da internet, mas nós nos perdemos, não temos mais nada a ver um com o outro. Precisamos encerrar a nossa relação.
— Você sou eu mesmo me dando um pé na bunda, é isso?
— Não. Eu sou apenas seu avatar desistindo de você por falta de identidade mútua.
— Então… se você é meu avatar, sou eu mesmo…
— Era… lá no início, quando você
— Contrata o avatar do Ricardo, seu vizinho.
— O quê?
— Sim, ele está desistindo porque o Ricardo entrou em depre&&ão, não posta mais nada. Acho que uma piscina e uma caipirinha vão fazer bem pra ele… sei lá… faz uma proposta, ué!
— Entendi… você tem o telefone dele?
— Que telefone, cara? É avatar! Chama inbox…
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Não é segredo que as redes sociais têm se tornado uma fonte de @ngú&ti@ e @nsi∑d@d∑, sem falar da disparada de sentimentos como inveja e ódio, todos conduzindo as pessoas para o caminho da depre&&ão.
O que muita gente não está percebendo é que a relação dos usuários com as redes sociais muda com muita velocidade. O hábito de curtir, por exemplo. Além de gostar do post, os “amigos” colocam na balança se também gostam da pessoa que postou, se ela também curte os seus posts, se é famosa, se tem algum interesse e quer dar uma puxadinha de saco, se o post já tem muitas curtidas e mais uma não vai fazer diferença, se tem poucas e ficam com pena… é tanta coisa — e estamos falando apenas de curtir, a interação mais simples de todas!
Depressivos precisam ter muito cuidado com o tipo de relacionamento que estão tendo com as redes sociais. Percebam que eu disse “com” e não “nas” redes sociais. Se for um adolescente é importante que os pais monitorem. Aumento ou redução significativa na quantidade de posts, mentiras, mudança de tom (agressividade, desabafos etc.), mensagens desconexas, sem sentido ou gratuitas (também conhecidas como “nada a ver”) têm grandes chances de serem indicativas de depre&&ão.
Mais complicado ainda quando vemos Youtubers e Instagramers com milhões de seguidores sendo completamente vazios de conteúdo. Qual a explicação? Não existe. Se existisse, todos poderiam adotar a mesma fórmula e fazer sucesso também. Sem se darem conta disso, quantos e quantos jovens estão escolhendo a fama como objetivo de vida? Acham que podem criar um avatar de si próprios e programá-lo para o sucesso. E estão se frustrando porque o funil é incrivelmente estreito.
Redes sociais podem levar à @nsi∑d@d∑, que pode levar à depre&&ão, que pode matar. Isso é fato, não é fake.

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