[DIA 17] - TEXTO ESCRITO EM 30/JAN/2022
Os vocês que você desconhece.
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Lá se vão uns quinze anos, mas eu me lembro como se tivesse sido ontem. Quase dez da noite, saindo da agência, logo que abri a porta do meu carro fui abordado por um rapaz, acho que não tinha dezoito anos. Eu nunca tinha sido assaltado. Não fazia a menor ideia de como reagiria. Aliás, nunca tinha sequer pensado nisso.
O garoto era loiro, olhos claros, cara marcada por espinhas, quase da minha altura. Um pouco mais distante, outro rapaz que eu não consegui identificar direito, apenas notei que estava assustado, desconfortável com a situação. Não consegui ver o motorista do carro onde estavam, mesmo estando parado bem na nossa frente.
Notei que o menino estava claramente sob a influência de drogas. Olhos esbugalhados, impaciente, hora colocava o revólver encostado na minha cabeça, hora afastava e apontava para o meu rosto. Percebi que ele segurava a arma com displicência. Virei um pouco os olhos e não vi nenhuma arma com o seu colega. Pensei: eu consigo desarmar este cara. Em fração de segundos, mudei de ideia. Não valia a pena, primeiro deveria saber o que ele queria. Não me lembro exatamente o que ele falava, mas estava tentando me intimidar. Num determinado momento chegou bem perto de mim e gritou algo como “você acha que estou brincando?”. Eu estava impassível e acho que a minha calma o estava deixando mais nervoso. Pediu a chave do carro e eu entreguei. Pediu o celular e eu disse que estava na minha bolsa, apontando para dentro do carro. Ele olhou, viu a bolsa no banco do passageiro e, sem desviar a arma de mim, gritou para o comparsa entrar no carro. O carro que estava esperando saiu cantando pneus na direção oposta. Enquanto saíam, o loirinho não tirava os olhos de mim. Fiz questão de pegar o celular no bolso de forma que ele visse. Sabia que eles não tinham mais como parar e voltar. Liguei para a polícia com um sentimento de vingancinha… enganei você, hahahaha!
Alguns instantes depois minhas pernas começaram a tremer, quase não conseguia ficar em pé. Estava um pouco assustado comigo mesmo. Não imaginava que seria tão frio e calculista numa situação dessas. Nunca mais fui submetido a um estresse extremo como esse.
Todos temos versões diferentes de nós mesmos habitando os meandros das nossas mentes e só existe uma única maneira de conhecer estes “eus”: viver os momentos em que eles tomam conta de você. Não há como prever nem imaginar, tem que experimentar. Devem ser simulações deste tipo que fazem em treinamentos militares e outros afins… só acho… tenho certeza mesmo é que ninguém reage igual a ninguém. Alguns se deixam levar pela emoção, outros entram em pânico, tem os que desmaiam, os que começam a gritar, os que choram pedindo “por favor não me mate”, os que partem para o enfrentamento sem medir consequências.
No último dia treze eu descobri que nenhuma experiência prévia pode nos preparar totalmente para o que ainda estamos por viver. Naquela manhã fui apresentado a um novo eu. A melhor solução que encontrei foi ser gentil com ele.
— Olá! Sou o Sérgio que esteve por aqui durante quase sessenta anos. Você é o novo que está chegando agora, né? Muito prazer! Vai ser uma jornada e tanto pra gente se conhecer, vamos nessa!

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